TEXTO: MIGUEL DE CASTRO HENRIQUES
FOTOGRAFIA: SUSANA NEVES

 

A convite do arquitecto Fernando Maia Pinto, director do Museu do Douro, a artista Susana Neves concebeu e desenvolveu durante um ano, a primeira edição do projecto de fotografia e etnobotânica “As Árvores que Comiam Papel”.

No Ano Internacional das Florestas 2011 (UNESCO), este projecto envolveu crianças, professores, os proprietários de duas quintas históricas — a das Brôlhas e da Pacheca — e os de outras quintas, como as Leiras e o Prédio dos Eirados, em Valdigem. Além das árvores destas quintas incluíram-se numerosas espécies arbóreas do parque florestal do Alto de S. Domingos, em Armamar.

Este projecto apresenta-se em sincronia com uma nova consciência internacional das árvores e é pioneiro a nível da educação ambiental e museológica; um verdadeiro desafio ao reencontro da comunidade com as suas árvores, à descoberta, como diz SN, de que “quem tem bosque tem tudo”.

Aqui deixamos, até agora inéditas, algumas imagens documentais e um dos textos que acompanhará a exposição, de mais de uma centena de fotografias de árvores e paisagem, cuja data de inauguração será oportunamente divulgada, para celebrar de modo condigno este Olimpo, terra sagrada que Miguel Torga julgava reconhecer no “chão bendito” do Douro.

 

  «Tudo o que se ama pode tornar-se o centro de um Paraíso.»

Novalis

 

A fugacidade das estações do ano tem um ritmo ao mesmo tempo terrestre e cósmico, e numa região animada por um rio que a separa e une, como é a região do Douro, a ideia de movimento perene e a variedade que as águas induzem, ainda não foram postos completamente à margem pelo crescente número de barragens e a ocupação urbana desenfreada e hipocondríaca, que tem caracterizado um desenvolvimento unilateral que apaga o espírito e o génio dos lugares com os seus pesados esqueletos de cimento e compridas, autoritárias e muitas vezes escusadas e  despóticas auto-estradas.

O Douro não é apenas a região vinhateira de eleição, que se soube recriar desde o transporte fluvial à cristalização de uma série de quintas, cada um tentando um sabor único e ao mesmo tempo comum. As belas vinhas, verdadeiras toccattas e fugas desde os ramos nus, escuros e invernais, que prefiguram braços descarnados clamando aos céus, a todas as manchas de verde, do verde tenro ao verde forte, até que chegue a paleta dos vermelhos que vão desde o vermelho rosa ao púrpura, tem sido desde há séculos o consolo e o alimento para todos os que têm uma verdadeira paixão, culpada como todas as paixões, pela féerie do colorido, pela Natureza não hostilmente refreada por regras de comércio e indústria, esse quantum satis ainda de vida indomesticável, que só não encanta as comunidades tocadas por um sono utilitário e tosco.

Entretanto, na terra das vinhas, na região DOC mais antiga de Portugal, há solos viçosos com uma exuberância quase tropical de flora, de fauna, de vida. Na época do Sturm und Drang, o rio era o símbolo do génio da energia vital e criadora do progresso; e essa fecundidade dá lugar a que existam e sejam surpreendentes, muitas árvores, desde as autóctones (como os carvalhos, salgueiros, choupos, pinheiros, sabugueiros, amieiros, freixos, medronheiros) às exóticas (tais como o eucalipto, mimosas, robínias, palmeiras, magnólias, cameleiras) até às que dão fruto (cerejeiras, amendoeiras, castanheiros, ameixeiras, macieiras, oliveiras, etc).  Por todo o lado do vale do Douro surgem. Estão também nos cimos, e por vezes, formam um bosque, como no Alto de São Domingos, em Armamar, um antigo lugar sagrado para os celtas, e onde os reis de Portugal voltavam num sadio gesto pagão para procurar os eflúvios de Gaia, conhecidos nesse Mons Sacrum como capazes de dar fertilidade aos gens cansados, ou no vales e nos seus tecidos ascendentes como acontece em alguns terrenos de exploração vinícola, caso do Prédio dos Eirados, ou em algumas quintas históricas, como a Quinta das Brôlhas, a Quinta da Pacheca, ou o antigo pomar da Quinta das Leiras, cujos proprietários generosamente abriram as suas portas à primeira edição do projecto “As Árvores que Comiam Papel”.

Há projectos que transformam as pessoas. Há projectos que transformam as paisagens. Outros transformam as pessoas e as paisagens. Desta feita no decurso de um ano, a artista multimédia e jornalista de investigação Susana Neves, num singular projecto de autor, graças ao patrocínio do Museu do Douro, quis dar a ver esse outro lado da paisagem e da cultura duriense que são as árvores. A ideia era que ao longo de um ano, crianças de escolas da região (nesta edição participaram a Escola Básica 2.3, de Peso da Régua e a Escola Básica 2,3 de Andrães) fossem em cada estação, ao campo, surpreender as diversas fases da vida das árvores. Munidos de pequenas máquinas digitais Canon, baptizadas com um nome de uma árvore que passaria a ser o seu novo apelido, irmanando-se à certeza tranquila da Natureza que muda sazonalmente com uma subtileza e leveza que nunca deixa de nos consolar e surpreender, iriam ao longo de todo um ano — ao mesmo tempo que mantinham um diário — captar o fluxo de cores diferentes, pormenores dos troncos, das raízes, dos ramos, e desde a floração ao amadurecimento, entrando em sintonia com os ritmos ao mesmo tempo antiquíssimos e sempre novos da Natureza nos seus labores.

“Onde existem crianças existe o Paraíso” dizia Novalis, porém este projecto pensou destinar-se a toda a comunidade. Procurou envolver os mais velhos, e os pais das crianças naturalmente, os proprietários das quintas, os professores, os amigos e familiares, tentando que no meio das incongruências e deformações do nosso tempo utilitarista e quase nada poético, se redescobrissem as árvores, a memória delas, o que os antigos ainda delas guardavam da sua memória.  Portanto, não era mais um projecto para colmatar tempos livres — como se diz no abstracto jargão do “escolês” — e dar um verniz penso rápido de conhecimento. Era mais ambicioso, queria partir para uma redescoberta integral da surpresa de olhar. Apontar para um “ver novo” que ultrapassasse as frustres racionalidades e pudesse começar a desenvolver nas crianças uma nova atitude, uma nova energia, face a um património autenticamente vivo e vital – o das árvores.

Um projecto que tenha vida e que defenda a vida não é normativo, nem fixo, deve ser como um rio, tranquilamente transformativo e assim se viu ao longo de um ano, mormente quando as crianças começaram, com alegria, a ter uma nova atitude, atenta e curiosa, e ao mesmo tempo lúdica na sua aproximação às árvores, passando a poder considerá-las doutro modo, como seres sencientes, como sendo de facto os nossos melhores mestres de vida e não meros “produtos” sujeitos à flutuação errática e dispersiva dos mercados e do lucro. Nisto se abrem as perspectivas de uma nova consciência própria de um novo século que ultrapassou a separação esquizofrenizante entre o Homem e a Natureza, fazendo com que agora se possa reencontrar o caminho da antiga harmonia, onde nós seres humanos e a Natureza, como dizia Pascoaes, nos tornamos um.