TEXTO: JOSÉ LUÍS DE SALDANHA

 

«The rib-edged cylinder of brittle transparent plastic, the curved pen top (always the same colour as the ink) with the clip that adorns shirt pockets and clipboards, the little curved stopper on the end of the pen that inevitably succumbs to the ravages of bit and chewing: these traits are recognizable worldwide».[1]

Em 1945, os industriais Marcel Bich e Edouard Buffard fundaram a sociedade PPA (porte-plumes, portes-mines & accessoires), com o objectivo de fabricar canetas de tinta permanente e componentes para lapiseira na cidade de Clichy, França, iniciando com isso uma das mais notáveis e lucrativas das empresas mundiais do pós-guerra. 65 anos depois, a maioria das acções do grupo empresarial estão ainda nas mãos dos seus familiares: os Bich têm 40% da empresa; os Buffard têm 4,5% (valores arredondados).

Marcel Bich nascera em Turim em 1914, embora a família fosse oriunda de Aosta – um dos mais curiosos mosaicos da realidade regional que Garibaldi unificou no século XIX, e que hoje conhecemos como Itália.

Na região do Vale de Aosta, predominava historicamente um dialecto local de raiz franco-provençal (o “patois” Valdôitan) que ainda hoje é falado. O bisavô do criador da PPA, Emmanuel Bich, ocupara mesmo o cargo de «síndico» (um cargo administrativo) de Aosta – motivo pelo qual o Duque da Sardenha lhe concedera o título de «barão», pelo qual o seu bisneto industrial será por vezes tratado. De Aosta, historicamente, dava-se emigração para França, e em especial para a região de Paris.

5 anos depois da criação da empresa PPA,  Bich e Buffard lançam no mercado o artigo que irá imortalizar a sua empresa: a esferográfica «Cristal». Em 1953, a PPA assume o nome BIC, marca entretanto registada por perda da letra H do apelido do «barão» Bich – um excelente nome comercial, pronunciável em qualquer língua do Mundo.

A intuição para o negócio, e a persistência na investigação científica, fazem-se acompanhar de um gosto vincado na divulgação da marca: quantos não recordam os anúncios televisivos de recorte impecável de um abstraccionismo mecânicos e seco?!:

– Bic laranja da escrita fina,

– Bic cristal da escrita normal,

– Bic, Bic, Bic,

– Bic, Bic, Bic.

A empresa de Marcel Bich investira durante anos na investigação em tintas que se adequassem às cargas das esferográficas que desejavam comercializar: havia que encontrar a viscosidade adequada, de forma que a tinta «escorresse» da carga para a ponta metálica sem borrar o papel.

Manda a verdade histórica que se esclareça que a invenção da esferográfica não é da BIC. Trata-se de uma criação do judeu húngaro Laszló Biró. Nascido em Budapeste em 1899, de

profissão jornalista, apresentou a caneta esferográfica que desenvolvera com o irmão Georg após vários anos de aturadas investigações, na feira industrial dessa cidade, em 1931. Em ’38, patenteou o invento em Paris, para onde emigrara em fuga às leis anti-judaicas da Hungria. Em 1943, mudou-se para Buenos Aires (onde viria a morrer em 1985) juntamente com o irmão, tendo patenteado a invenção da caneta de ponta metálica em esfera nessa cidade no dia 10 de Junho desse ano.

Na Argentina produz esferográficas sob o nome comercial «Birome», que prenunciam o futuro arquetípico das criações de Bich e Buffard no plano internacional: «birome» é a marca comercial da caneta que Biró lança no mercado argentino, e esse é o nome que nesse país é dado à esferográfica (qualquer que seja o fabricante). No vizinho Brasil, curiosamente, a universalização de expressões comerciais é ainda mais lata: xerox passa a designar, no «país irmão», qualquer cópia de um artigo. Não é invulgar que alguém faça um xerox de uma chave de porta…

A PPA de Bich e Buffard toma conhecimento da invenção de Biró, e adquire a patente em 1950. Sobra ao argentino naturalizado a glória no país das Pampas, e sem dúvida uma fortuna confortável – ainda que muito aquém das somas astronómicas com que Bich e Buffard se verão envolvidos. Em todo o caso, o dia 29 de Setembro é consagrado a Biró na Argentina: o seu dia de anos é escolhido como o «dia do inventor».

Para além do sentido de oportunidade, a Bic tem também outros méritos: desenvolve o processo industrial de produção que permite baixar os custos consideravelmente. Assim, quatro anos depois da entrada em produção da Bic-Cristal, a marca internacionaliza-se, com entrada no mercado italiano. 1956 vê-a entrar no Brasil. Em 1958, a Bic adquire a célebre «Waterman» americana, num prelúdio de aquisições sucessivas que ao longo dos anos acrescentam produtos e marcas ao portefólio do grupo empresarial, e de que avultam, a título exemplificativo, os lápis «Conté» (em 1979); as canetas (igualmente americanas) «Sheaffer», em 1997; ou a marca alemã de tinta correctora «Tip-Ex» no mesmo ano (em ’92 já haviam comprado a americana «Wite-Out»).

No que se refere às esferográficas, que de momento são aquilo que nos interessa, há que referir que o brilhante logótipo surge logo no ano de lançamento da «Cristal» . O «designer» Raymond Savignac, contratado pela empresa em 1952, irá criar a figura do rapazinho de escola «estilizado» de cabeça de ponta metálica incluído numa campanha publicitária de 1961, que no ano seguinte será somado ao logo da Bic – aliança com a qual a empresa se acha pronta para a conquista do mundo. Em 1961 dá-se a alteração da ponta esférica de 1 milímetro da «Cristal» em aço, para o uso do tungsténio. Em 1970, já vendem 6 milhões de unidades/dia no Mundo inteiro.

Em 1991 – ano do 40º aniversário da caneta – a Bic havia já vendido 60.000 milhões de canetas de «Cristal»!!! Esta peça notável de «design» acha-se também consagrada no mundo das Artes desde 2005: ano em que tanto o MOMA de Nova Iorque como o Museu Nacional de Arte Moderna/Centro Georges Pompidou apresentam no seu acervo expositivo a singela canetinha transparente da Bic, que o fabricante anuncia em plena realidade «comunitária»:

3 km de escrita por 1,50€!

Falta assinalar que a «Cristal» evidentemente figura na enciclopédia «Phaidon Design Classics» – compilação em 3 volumes de 2006 (ela mesma, um clássico) onde se elencam as 999 obras mais notáveis do Design mundial. A esferográfica da Bic leva o número 380 (que se organizam por ordem cronológica, e não por critério qualitativo).

Porém, aquilo que verdadeiramente notabiliza a produção da marca francesa é a natureza arquetípica[2] da caneta Bic. A omnipresença da esferográfica no nosso quotidiano eleva-a, por banalização e abundância, a peça quase invisível aos olhos: tal como o Volkswagen Carocha, o Morris Mini, o ar que respiramos, o «God Save The King» (que há mais de meio século se conjuga no feminino) ou a supermodelo Claudia Schiffer, torna-se virtualmente impossível encontrar quem goste, ou desgoste, da caneta Bic. Ela não é bonita nem feia: ela simplesmente É.

Por outro lado, deve realçar-se o forte simbolismo que, no período do pós-guerra, reveste a caneta: é a primeira do tipo descartável. Contrariamente à tradição no mundo das canetas, a sua vida termina inexoravelmente no caixote do lixo. Uma caneta Bic é igual a outra, e o seu preço irrisório ajuda a sublinhar o sentido arquetípico. Perdê-la não custa, porque rapidamente a recuperamos na loja da esquina. Afinal, a definição que nos é dada pela Porto Editora é incompleta, porque omite o facto de que «as coisas concretas são cópias» – mas sem dizer que elas o são de modo imperfeito, já que a sua matriz se acha fora do mundo real. No caso da Cristal isso não sucede porque «a Bic» como objecto «não existe»: o que identificamos é o arquétipo. A presença cristalina também não deixa de lhe conferir um ar de varinha-de-condão…

Em 1972, a Societé Bic passa a ser cotada na Bolsa de Paris, para no ano seguinte conseguir o impensável: repete a proeza no domínio dos arquétipos e lança o isqueiro descartável. «O Isqueiro Bic»!!!

O assunto mereceu um estudo pelo menos tão aturado quanto aquele que conduziu à produção maciça de esferográficas. A ênfase, desta feita, incidiu na segurança do objecto. O que não surpreende: um isqueiro é uma pequena bomba de combustível. A via escolhida pela «Societé Bic» foi lúcida. Comprou um fabricante de isqueiros francês (a «Flaminaire»), cuja equipa de Design tomou a responsabilidade de desenvolver o objecto.

O desenho do isqueiro Bic segue os preceitos parcimoniosos da sua irmã escrevinhadora: preço irrisório, materiais residuais, apresentação minimalista. O resultado, como anteriormente, resulta numa peça cuja perda só custa quando por perto não temos outra fonte de lume. Quem pode arrogar-se a clarividência de sentenciar quanto à beleza do objecto?!… «O» Bic leva o número 766 na relação da Phaidon.

Curiosamente, o isqueiro Bic segue as pisadas da «Cristal» noutro aspecto: também aqui, não foi o clã Bich ou seus associados a inventar o conceito do isqueiro descartável. Essa façanha coube a Jean Inglessi, em 1948. Um homem, também, de talentos: é nada menos que o inventor da bilha de gás doméstica – em 1934. Mais: em 1962, a também francesa «Cricket» já havia iniciado a produção e comercialização de isqueiros descartáveis – mas não conseguiu com qualquer dos seus artigos (o «Cricket Maxi Lighter» é o nº 792 da Phaidon) igualar a história de sucesso «do» Bic. No ano imediato ao seu lançamento, a Bic já vendia 290.000 isqueiros por dia.

O historial da empresa francesa acha-se portanto repleto de façanhas. 1975 vê a chegada da lâmina-de-barbear da Bic, que não chega aos parâmetros da enciclopédia da Phaidon (sendo verdade que a única lâmina que figura nessa relação é a Gillette Trac-2, que só tem a «cabeça» descartável: [3]).

Além da linha de pequenos barcos de recreio (com ou sem vela) que a Bic também produz, em 2008 é a vez dos telemóveis de marca Bic, desenvolvidos em parceria com a Orange e a Alcatel – mas contrariamente aos dados iniciais, o telefone não é verdadeiramente descartável, pois pode ser recarregado. Nem todos os desenvolvimentos da Bic foram porém igualmente bem-sucedidos: fizeram por exemplo uma incursão muito mal sucedida no mundo dos perfumes em 1988, ao qual nunca regressarão…

 

Notas

[1] Sara Manuelli para Phaidon Design Classics. Volume 2. 2006.

2 Arquétipo – s.m. 1. Modelo, protótipo, paradigma; 2. FILOSOFIA (Platão) tipo ideal e supremo de que as coisas concretas são cópias […] Dicionário da Lingua Portuguesa. Porto Editora, 2004.

Archetypum, ī – n.  arquétipo, original, modelo.

Archetypus, a, um – adj. original, primitivo. Dicionário Latim-Português/Português-Latim. Porto Editora, 2000.

3 Phaidon Design Classics. Volume 3. 2006. Artigo 741.